Minhas Imagens

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Sol dos Orixás

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

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Batalha de egos
Filme 'Clube da luta' é uma batalha ‘Homem x Homem’, na qual a pós-modernidade entra no ringue como juiz
Janine Justen
"Ser ou não ser” não aparece mais como questão central da existência quando o pano de fundo é a pós-modernidade. Agora, o homem pode ser muitos e, em simultâneo, não ser nada. E mais: a escolha passa longe do que entendemos por definitivo. É mutante, mutável. Paraíso? Para alguns. Mas é para tratar do outro lado da moeda, da crise de identidade profunda do sujeito contemporâneo, que o cineasta norte-americano David Fincher traz ao grande público o Clube da Luta(1999), uma adaptação do livro homônimo de Chuck Palahniuk.
O narrador (Edward Norton) representa um homem comum da classe média ocidental. Perdido, solitário, apático, descontente com o emprego e sem grandes planos ou perspectiva de vida. O perfeito retrato da falência pós-moderna, da sucumbência de um corpo pelo próprio corpo. A insônia o leva a procurar um médico e assim começa sua saga em grupos de autoajuda, já que o doutor lhe nega medicamentos, orientando-o a vivenciar o sofrimento de outrem, como alcoólicos e narcóticos anônimos e vítimas de câncer. 

Cansado de tamanha monotonia e morbidez, o personagem decide montar o “Clube da Luta” junto a Tyler Durden (Brad Pitt), a partir de uma briga de bar. O grupo recebe adeptos e cresce mais do que o previsto. A batalha entre ego e alter ego (ou consciência e subconsciência) extrapola os limites das quatro paredes de depósitos e galpões, alcançando as ruas, bancos e símbolos do poderio do consumo, como lojas de departamento e artefatos publicitários. Sem objetivos claros, o inimigo invisível’ toma ares de sistema e contornos de capitalismo.
Um duelo de egos
O longa se pauta em um aparente surto depressivo coletivo, próprio de um período cujas referências se esgotam nelas mesmas. Deus está morto, a história acabou e a Verdade não passa de um estigma, um tanto quanto incômodo, ao relativismo vigente. Os conceitos de “cultura de massa” e “ditadura midiática” ganham corpo, transcendendo toda e qualquer teoria que, por um lapso de ingenuidade, tenha ousado descrever (e prever) o estilo de vida moderno.
Pegando carona na “transvaloração de valores” de Niezstche, o pensador alemão mais catastrófico da Filosofia tradicional, a pós-modernidade ultrapassou o radicalismo da Escola de Frankfurt e os postulados de Debord, com a “sociedade do espetáculo”, para transitar entre o dito, o não dito e o maldito – já que as benesses são colocadas à margem desse sistema para lá de niilista. 

Eu vi no ‘Clube da luta’ o homem mais forte e inteligente que já viveu. Eu vi todo este potencial. E eu vi isto ser desperdiçado. Cacete, uma geração inteira que só enche o tanque de gasolina. Que só espera sua vez para se sentar à mesa. De almofadinhas escravizados. A propaganda nos fez caçar carros e roupas. Trabalhar em empregos que nós odiamos para que possamos comprar as merdas que não precisamos. Somos a criança do meio da História. Sem sentido ou lugar. Não tivemos a Guerra Mundial. Nenhuma grande crise. Nossa grande guerra é uma guerra espiritual. Nossa grande crise é nossas vidas. Temos sido criados pela televisão para acreditar que um dia nós seríamos milionários e deuses dos filmes e astros do rock. Mas nós não seremos nada disso. Nós estamos aprendendo vagarosamente este fato. E nós estamos muito, mas muito putos com isso. (Tradução livre)
Explicitamente, o personagem Tyler fala sobre as promessas de liberdade e igualdade da Revolução Francesa que não se cumpriram nem à época, quiçá nos dias atuais. Os homens tornaram-se submissos ao trabalho, ao consumo e às relações de status para se afirmar como “bem-sucedidos”. Mas o que sobressai, na maioria dos casos, é apenas uma devastadora sensação de fracasso. O “Clube da Luta” surge, portanto, como válvula de escape mais do que necessária, essencial.
Acusado de espetacularizar e banalizar a violência, Fincher alegou ter adotado metáforas para representar conflitos que assolam toda uma geração de jovens, como uma espécie de alerta e alternativa catártica. Para ele, o desconforto da audiência era a prova de que o objetivo fora alcançado. À época do lançamento, o filme não atingiu as expectativas de bilheterias e foi execrado por boa parte dos críticos. Com o posto de um dos filmes mais controversos dos anos 90, “O Clube da Luta” permanece estranhamente atual, esfolando feridas abertas de uma sociedade doente, já corroída pelo tempo.


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